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O MANIFESTO PSICODÉLICO DO FIM

  • Foto do escritor: Felipe De Nadai
    Felipe De Nadai
  • 11 de mar.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 6 de abr.

Este é um Manifesto em construção.

Há esperança de produzi-lo antes do fim do mundo, embora essa não seja uma promessa.


banner do manifesto psicodelico


Tudo o que acontece, acontece.


Tudo o que, ao acontecer,

faz com que outra coisa aconteça,

faz com que outra coisa aconteça.


Tudo o que, ao acontecer, faz com que ela mesma

aconteça de novo, acontece de novo.


Isso, contudo, não acontece necessariamente

em ordem cronológica.

Douglas A.


[...] Lá fora, o incêndio: o roxo lampadário das Macambiras rubras e auri-pardos Anjos-diabos e Tronos-vai queimando.


Sopra o vento – o Sertão incendiário! Andam monstros sombrios pela Estrada e, pela Estrada, entre esses Monstros, ando!

Ariano S.



PREÂMBULO


Incontáveis espectros rondam a América do Sul, o Brasil e o mundo.


São os espectros dos mortos das guerras de anexação, ocupação, expansão e tomada de territórios, mudança de regime, de exploração e da guerra às drogas.


Já se ouve e vê-se novamente nos corredores do Regime Trump, no Norte Global, planos de tomada e anexação de territórios soberanos, além do sequestro de líderes populares Sul-americanos sendo impelidos à responder juridicamente em outro país por, entre inúmeras acusações a de associação ao narcotráfico e organizações terroristas, somado ao ataque sistemático às nações do Oriente Médio desestabilizando regiões inteiras à procura de poder e acúmulo de recursos materiais. Organizações criminosas em países sul-americanos estão passíveis de alocarem-se como células terroristas, dando o aval norte-americano na invasão e controle militar do Brasil, por exemplo. Há um novo paradigma sendo imposto na geopolítica mundial onde não podemos nos furtar do debate: ele determinará os rumos de nossa trajetória terrestre caso não ajamos organizadamente, talvez este seja um convite como nunca antes na história. Inegavelmente que os saberes de economistas políticos, antropólogos, cientistas sociais, de hard science aliam-se em conhecimentos empíricos, vezes replicáveis, vezes não, para explicar os fenômenos que nos afligem. Falo do ponto de vista psiconáutico - se é que ele existe e, se o há, tenho dúvidas quanto à própria eficácia de seu concateno e por conseguinte partilha em frases compostas de sujeitos, artigos, verbos e predicados - onde há essa convergência entre saberes muitas vezes distintos culminados em algumas horas. O Manifesto é essa viagem. Interminável, hercúleo e ainda assim cativante (a mim, pelo menos, que tomou boas horas de sono). Escrevo-o há dois anos em 2026, quando o preâmbulo se descobriu do véu. Há muito a ser construído mas apresento a estrutura inicial do que será o Manifesto Psicodélico do fim, escrito por Felipe De Nadai, esse ainda ser orgânico apertando teclas plásticas. Supostamente esse ano finalizarei o percurso em delta deste Manifesto que brota de muitas contradições vistas e vividas no campo humano, aliado à nascente dúvida: será que quando nos invadirem deixarão que nossas práticas regionais sejam mantidas, como, e não só, exemplo seriam cerimônias de ayahuasca à cada duas semanas, talvez? A História tem bons dados a respeito do que ocorre em locais desestabilizados cívica e militarmente por outra nação. Talvez nos vendam psilocibina em cápsula como uma das "estratégias de enfrentamento" baseada em evidências ao trauma coletivo. Certamente será algo inovador com um slogan interessante. O futuro não é ironicamente ancestral até mesmo nisso?


Entendo, de forma simples e direta que temos alternativas: ou todas as potências do discurso estabelecido, sejam clínicos e xamãs, acadêmicos, empresários, entusiastas, terapeutas e líderes espirituais, sociedade civil e corpo político-legislativo aliam-se para refutar essa lógica bélica e (i) superarmos a dicotomia sacra-profana dos psicodélicos x enteógenos/medicinas sagradas, atribuindo-os o que são: drogas e (ii) extirparmos a possibilidade de abusos no meio psicodélico, com fiscalização, manejo, local para denúncias e medidas efetivas, que então, também,(iii) barrem a biopirataria e expropriação de práticas já consolidadas por sociedades indígenas e undergrounds, pioneiros nesse vasto campo a ser colhido pelo Capital em modo de (iv) denunciarmos e quebrarmos as criações de patentes e monopólios, em ações (v) contra a mercantilização do tratamento psicodélico, garantindo acesso que seja aliado a (vi) um debate crítico sobre sua integralização no SUS e outros sistemas de saúde universais ou privados, (vii) sem nunca perder de vista a luta pela descriminalização de todas as drogas não apenas as psicodélicas, transpondo o foco da segurança para a saúde, sem deixar de debater "que tipo de saúde é essa?" e onde o usuário será jogado, (viii) ao levar o inadiável debate sobre como a própria existência dos ecossistemas onde os psicodélicos existem depende também da subsistência humana, e qual será nosso papel nessa crise climática e social impulsionadas através da tecnocracia das bigtechs, (ix) tudo isso enredado na gritante necessidade de incorporação do conceito de matrix no paradigma psicodélico, afastada a assepsia promovida pelos ensaios clínicos ao olhar de forma minuciosa, plural e justa às múltiplas realidades existentes e (x) para uma expansão além da arrebatadora consciência cósmica promovida pela experiência psicodélica mas que inclua a justiça social, o acesso e a reparação histórica às comunidades extirpadas de suas práticas, ou sucumbiremos ao mesmo destino de outras espécies biológicas que já vagaram por esta Terra e tiveram menor impacto que os humanos: o beco sem saída da evolução, ou seja, a extinção da humanidade.


Diante do disposto, inicio com o ponto central.


Afinal, o que são psicodélicos? Tais moléculas químicas muitas vezes difernecidas entre fenetilaminas e triptaminas.

O que seriam enteógenos, plantas mestras, plantas professora, medicinas da floresta?


Como poderia ser palatável que o uso de psicodélicos (sejam psiconáuticos, exploratórios, recreativos, "enteogênicos", ritualísticos, de tratamento, de cura ou mesmo acidental) é o uso de droga?



CAPÍTULO I: A REALIDADE DAS SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS; AS DROGAS NO PLANETA DOS PROIBICIONISTAS


A história de todas as políticas de drogas até hoje existentes é a história da negação da materialidade em detrimento da potencial experiência, e em especial, aponto, da negação de quais corpos tem a possibilidade da experiência do uso dessas drogas.

codex de florença
Sacred mushrooms depicted in the Florentine Codex Book XI

Os cogumelos contendo psilocibina, por exemplo, antes da colonização colombiana eram utilizados apenas por líderes espirituais ou administrativos e, normalmente, para diplomacia - ou seja, o plebeu Asteca provavelmente não tinha acesso à medicina, muito similar ao que ocorre na segunda década do segundo milênio onde ilhas paradisíacas na América Central vendem estadias em resorts psicodélicos enquanto sua população não tem acesso às praias da ilha. Abdica-se de conhecimento observável quanto à periculosidade, tratamento e manejo de cada uma das substâncias por conta de um suposto controle da saúde pública, ao reduzir substâncias “pesadas” das “leves” como forma de subjugar populações por suas práticas (chineses com o ópio, mexicanos, por maconha ou africanos por liamba). Já dentro do campo psicodélico, há a recusa do termo "droga", na insistência em distinções como "enteógeno x psicodélico", nesta suposta sacralização que colocaria certas substâncias acima de outras e por conseguinte, seus usuários em categorias inteiramente opostas: o drogado e o iluminado.


As autoridades estatais, os aparatos de segurança pública ou mesmo os sistemas judiciais não reconhecem distinções semânticas entre enteógeno e psicodélico, entre medicina sagrada e droga recreativa, entre expansão de consciência e alteração psicotrópica. Para o agente de segurança que aborda um cidadão e para o juiz que determina prisão preventiva ou para o promotor que denuncia por tráfico, todas essas substâncias são drogas. A recusa em reconhecer esse fato não muda a realidade das consequências jurídicas, sociais, psicológicas e políticas dessa classificação.


apreensão cogumelos
operação Hofmann para combater o crime de tráfico de drogas realizado por meio de site especializado na venda de cogumelos. 2024

Quando um jovem da periferia é detido portando cogumelos contendo psilocibina, de nada serve argumentar que se tratava de sacramento religioso, de enteógeno tradicional, de medicina ancestral ou recomendação clínica. O mesmo ocorre com a maconha. Na verdade, a realidade brasileira em 2026 compreende situações antagônicas e complexas: há a possibilidade de se pedir cannabis pelos Correios, com prescrição e posologia ao mesmo tempo em que pode-se detido com pequenas quantidades de maconha, a depender do fenótipo e CEP de cada um dos indivíduos. A substância, essencialmente, é a mesma portanto, a guerra sempre foi contra a maconha, a liamba, a diamba, o pito e não contra a cannabis. Muitos chegaram nessa esteira proibicionista nos últimos segundos e não sentiram que ela segue rodando há muito tempo: na verdade, exportamos conhecimento médico brasileiro para divulgar seus estudos no Segundo Congresso Científico Pan-Americano em Washington, em 1915, associando a maconha aos pretos, pobres, prostitutas, arruaceiros.


As proibições de psicoativos remontam a um imenso empilhado de decisões políticas nada baseadas em segurança ou saúde pública. A cafeína, em especial o café, hoje abundante em qualquer mercado de bairro ou rede mundial já foi alvo dos proibicionistas. Compra-se filtros, grãos, em pó, arábica, catuaí, bourbon, oriundos de regiões brasileiras, colombianas, quenianas, italianas de forma prensada, expressa ou coada.. Porém um residente da Suécia em 1746 não poderia compra-lo ou mesmo tê-lo sob pena de prisão. O Japão, um dos maiores consumidores de tabaco no mundo proibiu seu cultivo e consumo no século 17, como também fez a China três séculos antes ou mesmo a Rússia, a última sob pena de açoitamento. Nossos exemplos recentes da proibição do álcool no território norte-americano foi desastroso: em menos de 15 anos havia um mercado paralelo pulsante e capilarizado nas grandes cidades do país. O uso de substâncias psicoativas está e esteve sempre sujeito às tensões políticas de sua época. Um fantasma temporal que ronda decisões de governantes — sejam imperadores ou cargos eleitos democraticamente.


Parto, portanto, das seguintes e inegociáveis premissas:


Os psicodélicos são drogas.

E os enteógenos são drogas.

As medicinas da floresta são drogas.

Os sacramentos ancestrais com uso de psicoativos são drogas.

E as terapias assistidas por substâncias psicoativas utilizam drogas.


Aprofundemos o campo das relações de poder que determinam quem pode usar quais substâncias em quais contextos sob quais condições. Este é o reconhecimento de que a batalha não se trava no campo semântico. O termo "droga" carrega estigma precisamente porque foi instrumentalizado pelo aparato proibicionista como ferramenta de controle social, criminalização seletiva e genocídio de populações marginalizadas.

A resposta adequada a esse estigma não é criar hierarquias dentro das substâncias psicoativas, declarando algumas dignas (enteógenos, medicinas) e outras profanas (drogas, entorpecentes), mas combater a própria produção do estigma.

As disputas sobre terminologia (enteógeno vs. psicodélico, medicina sagrada vs. droga recreativa) consomem energia política que poderia ser direcionada ao enfrentamento das estruturas de opressão que estão em curso. Enquanto nações indígenas, comunidades xamânicas, neoxamânicas e espiritualistas brigam com ensaios clínicos de terapia psicodélica sobre apropriação cultural, enquanto defensores da descriminalização brigam com defensores da medicalização sobre qual estratégia é mais eficaz, enquanto acadêmicos brigam sobre qual epistemologia é mais respeitosa, o Estado segue prendendo, o sistema segue matando, as desigualdades de acesso seguem se aprofundando ao afastar a população do cuidado que poderia receber de auxílio por um eventual uso abusivo.


A tentativa de mover para o nome enteógeno o que inicialmente se chamou de psicodélico foi também uma estratégia tomada pelos autores Ruck, Wasson e Ott. A manobra seria eficaz ao distanciar essas substâncias da cultura popular e creditar a ela algo que invocasse a semântica da deidade atribuída por muito.


Contudo guerra de epistemes dentro do meio acadêmico, da antropologia à psicologia, da física à neurobiologia em nada avança contra os debates urgentes do nosso tempo. Alguns, que serão melhores explorados à seguir incluem a própria sobrevivência da nossa espécie. A utópica ideia de que os psicodélicos poderiam salvar o mundo cai por terra quando analisamos nossa realidade: as pessoas mais poderosas técnico-financeiras do mundo neste primeiro quarto de século do segundo milênio já tiveram contato com alguma substância psicodélica. A DMT, a psilocibina (4-HO-DMT, sempre bom lembrar na sua semelhança estrutural com a DMT), a ibogaína ou anestésicos dissociativos como a cetamina, entre inúmeras outras novas substâncias psicoativas com potencial psicodélico, ou seja, de expansão da mente, foram usados por nomes como Steve Jobs, Bill Gates, Elon Musk, Larry Page, Sergei Brin, entre vários tecnocratas multibilionários e ainda assim não há uma mudança global no meio de exploração do homem pelo homem, nem da sustentabilidade humana na Terra. Aliás, as soluções encontradas — leia-se vendidas — por esses seres é de criarem bunkers na Nova Zelândia, que colonizemos Marte ou que exploremos os mares no ártico e Polo Norte com novas rotas comerciais, condenando a população mundial à mudanças e variações climáticas diárias ao secar rios para data centers, pondo a aridez ser norma, onde a população terrestre provedora de serviços esteja nos subterrâneos ou em valas comuns.


Proponho, portanto, uma nova estratégia (”do grego, ΣΤΡΑΤΗΓΙΑ,…”), que inicia-se neste capítulo e percorrerá por dez instâncias ao longo das próximas linhas, com certeza sem se esgotar em absoluto. Estas são, inquietações de nossa geração e talvez não haja muitas seguintes para solucionar nossas escolhas e inações. Inicio, então, ao afirmar o reconhecimento de que, independentemente das diferenças epistemológicas, ontológicas ou espirituais sobre a natureza das substâncias psicoativas, existe uma materialidade compartilhada que nos obriga à ação política coordenada. Os psicodélicos são drogas perante o aparato estatal internacional. Temos tímidas ações em algumas nações ou mesmo em estados da federação norte americana onde há uma redoma de descriminalização/legalização. Esta é a realidade material incontornável que estrutura as condições de possibilidade de qualquer uso — ritual, terapêutico, recreativo, espiritual e uso adulto.


A insistência na distinção entre enteógeno vs droga, entre uso sagrado e uso profano, entre medicina e recreação, funciona apenas como dispositivo de exclusão que determina quem merece acesso e quem merece prisão. Quando a empresas como a Compass Pathways, ATAI Life Scieces e outras farmacêuticas emergentes buscam patentear formulações de psilocibina, DMT, 5-MeO-DMT sintéticas para "uso médico legítimo", implicitamente estabelecem que outros usos (comunitários, rituais, recreativos, de autoexploração) são ilegítimos. Para esse tópico, explorarei mais à frente nos capítulos IV e V.


Enquanto debates em congressos, simpósios, grupos, associações, empresas focam-se apenas nos possíveis benefícios dos psicodélicos, agora em seu nomeado renascimento não olhamos para dentro nem para fora. O capitulo a seguir é, então, sobre olhar para dentro do próprio movimento que cresce ao criar personagens e personalidades a serem seguidas.


Ou solucionamos o problema das drogas e como as encaramos, com as tratamos, ou então tudo estará contaminado pelo raiz moralmente proibitiva das políticas públicas.


Você, psiconauta.

Você, rezador com rapé, sananga, kambô

Você que vai toda a semana

e você que usa de vez em nunca.

Você que usa na rave ou em casa,

o txaizão e a casa de expansão

Você que compra cannabis com prescrição...


Você é usuário de droga. E tá tudo bem.


Bem vindo ao mundo. Ele tá acabando.


CAPÍTULO II:

VIOLÊNCIAS INSTITUCIONAIS E ABUSOS DE PODER ESTRUTURADOS NO CAMPO PSICODÉLICO


[...]

2 comentários

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Joyce
20 de mar.
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Eu AMEI o seu manifesto ! Ao ler, senti aquele chamado de qdo saímos da negação. É isso aí né, estamos vivendo agora a tal da grande guerra... como fomos tolos achando que morreríamos felizes, num mundo melhor... tá aí! já é. rs E a pergunta que fica é: pra onde direcionamos essa nave, dentro dessa matrix?

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Felipe De Nadai
Felipe De Nadai
24 de mar.
Respondendo a

Muito obrigado, Joyce. A grande questão é essa, a menos ainda: o dano total e irreversível não aconteceu, ainda. Embora o colapso seja iminente, daria para parar as máquinas e viver em outro paradigma. Daria. Mas não tá dando.

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