Os psicodélicos não vão salvar porra de mundo algum
- Felipe De Nadai
- 15 de fev.
- 13 min de leitura
Atualizado: 15 de mar.
* Este texto é parte do Manifesto Psicodélico e foi influenciado por ele. ** Os links estão funcionando mesmo para não assinantes dos jornais. Aproveitem.

Já estou seguro o suficiente para afirmar que os enteógenos, as plantas maestras, as medicinas sagradas, os psicodélicos, os alucinógenos, o tune in, turn on e o drop out, as experiências de morte do ego... Todo esse caldo contemporâneo do movimento psicodélico induz a seguinte crença: o despertar produzido pela expansão da consciência e pela morte do ego, aquilo que por vezes é chamado de "dissolver as fronteiras arbitrárias entre o eu e o outro", conduziria a humanidade a um estado de compaixão (ou minimamente compreensão) ampliada. E, numa interconexão ecológica radical, os humanos como coletivo da mesma espécie, abririam alas a uma nova era planetária.
O caldo psicodélico promete, no limite final de sua ambição, um mundo melhor.
Exemplifico como isso está já nas raízes do movimento psicodélico: existiu a ideia satirizada de jogar dietilamida do ácido lisérgico (LSD) na caixa d’água de uma cidade norte americana, Chicago. Repito: "satirizada" pois foi uma história criada por Abbie Hoffman, o ativista hippie (nada de relação com Albert Hofmann, até a grafia é outra), por conta de um evento do Partido Democrata. Vejam: o ano era 1968, logo após dois assassinatos históricos nos EUA: Martin Luther King, o ativista e ministro da Igreja Batista e também Robert Kennedy, então senador. Com a Guerra do Vietnã borbulhando, os ativistas do Partido Internacional da Juventude idealizaram que ao colocar LSD no sistema de distribuição de água da cidade faria com que os políticos atingissem a iluminação espiritual em parassem a máquina de guerra estadunidense.

E sim, há histórias de pessoas avidamente preconceituosas que mudaram de perspectiva. Em 2020 um supremacista branco norte americano usou apenas uma dose de MDMA em um dos ensaios clínicos e sua resposta foi surpreendente - e diria até coesa com a premissa de Krassner, Abbie e o pessoal da Yippies, o Partido Internacional da Juventude, em português. Ou seja, é de fato possível expandir a consciência social de pessoas autoritárias, meritocráticas e bélicas.
E quem aqui, leitores, que já tenha passado por uma experiência psicodélica e pensado
"todo mundo tem que provar isso. Isso pode mudar o mundo"?
É um pensamento sedutor, imaginar seu familiares sob efeito de ayahuasca.
O prefeito.
O secretário de segurança pública.
O presidente?
Porém, encontramos uma realidade profundamente perturbadora: nesse instante, as pessoas mais poderosas e capazes tecnologicamente, os novos e os futuros donos do mundo, o pessoal do 1% — quase todos — já tomaram psicodélicos.
Ou seja, o futuro criado à partir de uma piada quase sessenta anos atrás é uma realidade hoje em 2026.
Groovie.
Mas tem uma coisa que não bate, uma conta que não parece fechar:
Esses caras viram a morte de seus egos, atravessaram o véu, enxergaram a unidade cósmica de todas as coisas, choraram diante da beleza inefável do universo.
E então retornaram de suas experiências tão quão inefáveis.
Entretanto, de uma forma curiosa, voltam decididos que a melhor aplicação dessa sabedoria expandida aliada a seus conhecimentos, seria construir sistemas de vigilância em massa, otimizar penitenciarias, expandir as cadeias de deportação, especular sobre a colonização de outros planetas enquanto este aqui arde em chamas, enchentes e eventos climáticos catastróficos durante a corrida do acúmulo de riqueza em escalas que nenhum faraó egípcio jamais sonhou possível.
Usemos, por exemplo, Peter Thiel: cofundador do PayPal, aquele sistema de pagamento e da Palantir Technologies: investiu cento e vinte e cinco milhões de dólares na ATAI Life Sciences, que é startup dedicada ao desenvolvimento de terapias psicodélicas para transtornos mentais. Thiel chegou a dizer publicamente que "a grande virtude da ATAI é levar a doença mental tão a sério quanto deveríamos estar levando todas as doenças desde sempre". O bilionário Elon Musk já admitiu o uso regular de ketamina. Anteriormente, nos anos 1970, Steve Jobs, ícone da revolução digital, creditava ao LSD parte fundamental de sua visão criativa, afirmando que a experiência psicodélica foi uma das coisas mais importantes de sua vida. Seu maior rival da época, Bill Gates, revelou apenas recentemente em sua biografia que usou LSD mais de uma vez na juventude - no livro (autobiográfico) não revela muito sobre sua relação com Jeffrey Epstein, curiosamente. Os executivos do Google frequentaram o Burning Man como forma de avaliação para a entrada de um novo diretor, festival nascido da contracultura e hoje dominado pelo Vale do Silício, onde consomem MDMA e ayahuasca em tendas climatizadas enquanto discutem estratégias de monetização de dados pessoais via Web 3.0.

A lista segue: CEOs do Vale do Silício, bilionários tech, investidores de risco, líderes políticos e uma parcela significativa da elite global contemporânea já dissolveu o ego, já experimentou a morte simbólica, já teve acesso direto ao que Aldous Huxley chamou de "portas da percepção".
E o que esses iluminados estão fazendo com suas consciências supostamente expandidas?

Minimamente, estão construindo a infraestrutura material para um Estado de vigilância sem precedentes na história humana, um panóptico como Foucault não teria previsto. Ao analisar os Estados Unidos, que estão desenvolvendo e aplicando algoritmos que decidem quais crianças serão deportadas primeiro, priorizando "criminosos violentos" através de sistemas que integram dados de saúde, do Seguro Social, da receita federal e até leitores de placas de veículos.
As guerras no Oriente Médio se tornaram projetos pilotos, ensaios militares externos, em eterno aperfeiçoamento para então usar a tecnologia de controle mais sofisticada possível "dentro de casa".
E, de alguma forma, estão discutindo, sem nenhum pudor ou ironia aparente, não como sustentar a vida neste neste planeta, mas como abandoná-lo — como tornar Marte, a Lua, o Espaço... habitável para uma minúscula parcela enquanto bilhões de pessoas enfrentam um colapso climático inevitável, criado justamente pela expansão focada em acúmulo às custas do planeta, acelerando a escassez de recurso hídricos e, por conseguinte, a extinção em massa de espécies, incluindo a nossa.

Nada disso fez a tecnologia mais humana, menos corporativa ou menos exploratória.
A experiência psicodélica não impediu que mentes brilhantes criassem modelos de negócio baseados em vício comportamental, extração de dados e precarização do trabalho. A morte do ego não gerou compaixão sistêmica; gerou, na melhor das hipóteses, filantropia performática e, na pior, indiferença sofisticada revestida de linguagem espiritual.
Aliás, olha essa porra: a Palantir Technologies (empresa que recebeu investimento inicial da CIA através da In-Q-Tel e hoje vale mais de um bilhão de dólares por trimestre) carrega um nome retirado de "O Senhor dos Anéis" de J.R.R. Tolkien, que extraiu a palavra do vocabulário queniano. As Palantíri, ou esferas mágicas capazes de revelar eventos passados, presentes e futuros, de visualizar lugares distantes, de "enxergar além" das limitações da percepção comum. Na obra de Tolkien, essas pedras eram artefatos de poder ambíguo, capazes de corromper quem a usasse, instrumentos que Sauron usou para espalhar medo e desinformação, que levaram Denethor à loucura e Saruman à traição.
E os fundadores da Palantir, imersos na cultura nerd do Vale do Silício, leram Tolkien e pensaram: "Perfeito. É exatamente isso que queremos construir". Não como metáfora de advertência, mas como manual de operações. Hoje, a Palantir cria literalmente os olhos panópticos do Estado contemporâneo. Sua plataforma Gotham é descrita como um "sistema operacional para tomada de decisões globais", integrando dados fragmentados de múltiplas agências governamentais, transformando registros estáticos em redes de inteligência fluida, construindo perfis detalhados de indivíduos que incluem redes sociais, movimentos, características físicas e histórico criminal.

O ImmigrationOS, um contrato de trinta milhões de dólares assinado com o ICE em agosto de 2025, possui três componentes principais: priorização algorítmica de deportação, rastreamento em tempo quase real de pessoas saindo voluntariamente dos Estados Unidos, e otimização do ciclo completo de remoção. Stephen Miller, arquiteto da política migratória de Trump e ideólogo da separação familiar na fronteira, tem participação financeira na empresa. Outra ferramente, a ELITE popula mapas com alvos potenciais de deportação, gera dossiês sobre cada pessoa e fornece "pontuações de confiança" sobre endereços atuais, recebendo informações do Departamento de Saúde e Serviços Humanos — informações de saúde coletadas para fins de assistência social sendo usadas para vigilância e deportação.
Vejamos a perversão completa do ciclo: Palantir, palavra que literalmente significa um artefato místico para "enxergar além", batiza a empresa que constrói os instrumentos de um Estado que não enxerga apenas além de fronteiras, mas deportações e contenção interna.
Os visionários que alegam ter visto além do véu retornaram para torar as ferramentas de opressão inimaginavelmente mais eficientes.
O abismo entre discurso e poder
Temos um movimento decolonial vibrante na academia enquanto os caras mais ricos do mundo — que usam ketamina, DMT, psilocibina e outras substâncias que muitos de nós nem sabemos o nome — conversam abertamente sobre colonizar outro planeta. A ironia seria cômica se não fosse trágica. Enquanto debates acadêmicos e ativistas se concentram em desconstruir epistemologias coloniais, em recuperar sabedorias ancestrais, em discutir se devemos usar os termos "enteógeno" versus "psicodélico", se determinadas práticas constituem apropriação cultural ou intercâmbio legítimo ou mesmo o que caralhas é a tal da integração psicodélica, especialmente em comunidades indígenas, os homens com acesso a DMT sintético de laboratório, produzido em condições controladas e consumido em retiros psicodélicos jamaicanos de luxo, discutem friamente a anexação da Groenlândia, da Crimeia, da Ucrânia, de Marte, da Lua e da sua vida.
Eles não debatem reparações históricas.
Eles debatem como garantir que suas fortunas sobreviverão ao colapso civilizacional.
Eles não se preocupam com mudanças climáticas no sentido de preveni-las; discutem, em reuniões fechadas, como explorar o petróleo do Polo Norte quando o gelo derreter completamente, como transformarão essa catástrofe ambiental em oportunidade de negócio.
É aqui que o debate precisa acontecer. Não nas margens semânticas, não nas disputas terminológicas, mas no centro duro do poder.
Nessa hora que tem tocar um Raul: "travamos uma inútil guerra com os galhos, sem saber que é no tronco que se encontra o coringa do baralho".

E é verdade.
Enquanto defendemos epistemologias e lutamos batalhas culturais importantes mas insuficientes, a água do mundo está sendo drasticamente drenada para criar e manter data centers que alimentam inteligências artificiais treinadas para otimizar publicidade e vigilância.
Enquanto escrevemos teses sobre ontologias relacionais, quem comanda países tenta anexar seus vizinhos através de guerra ou coerção econômica.
Enquanto discutimos a ética do uso ritual versus terapêutico de psicodélicos, os chefes das maiores empresas do planeta (que também são acionistas em empresas de psicodélicos e pasme, de empresas de segurança e vigilância) se preocupam não em como arrumar a indubitável e derradeira destruição planetária, mas em como criar formas sustentáveis de sair daqui, de garantir a continuidade da espécie humana — ou pelo menos de uma fração mínima e extremamente privilegiada dela — em outro lugar.
A bad trip dos 100 anos
Eu imaginava que o fim do mundo seria imediato: seríamos subjugados por uma raça alienígena, atingidos por um meteoro, vaporizados por guerra nuclear... Algo veloz que tivesse pelo menos a dignidade da rapidez.
Porém, sinto anunciar: o fim do mundo será uma puta duma bad trip calorenta que durará século inteiro — tempo infindavelmente insignificante na escala geológica dos mundos, ao mesmo tempo que significa um total de vidas e mais vidas inteiras para nós, reles mortais condenados a viver exatamente neste momento histórico específico.
O principado ditador da Arábia Saudita já está se preparando (mais um projeto piloto de um futuro inevitável?) ao construir uma linha espelhada de centenas de quilômetros, climatizada, com trem-bala, lojas, residências. Além de impactar a migração da fauna local, prometia após uma canetada e cortar o país ao meio. Direitos humanos, ecologia e sensatez ficaram bem para trás. Mas, como sempre falamos, a matrix se impera. Esse empreendimento megalomaníaco poderá nem passar do primeiro quilômetro de tão absurdo e custoso que é e seus centenas de quilômetros já foram substituídos por apenas três até o ano de 2030. Ou seja, se tá difícil pros árabes criar algo no deserto por ser muito caro, imagine então como será para o pessoal desse planeta quando áreas inteiras desertificarem?

O fim do mundo será, prevejo, uma dissolução lenta: o aumento gradual das temperaturas seguido pelo aumento progressivo dos oceanos. Logo, a extinção silenciosa de milhares de espécies ao mesmo tempo em que a desertificação vai avançando metro por metro, e as migrações em massa de locais mais quentes para mais amenos, gerando conflitos civis (habitacionais, econômicos, de saneamento, laboral...), que obviamente geram mais vigilância por parte do Estado e que por conseguinte, gera mais opressão. Não haverá um momento catártico de reconhecimento coletivo, nenhuma cena de resolução narrativa em que a humanidade finalmente acorda e age. Haverá, em vez disso, uma série interminável de pequenas catástrofes normalizadas, cada uma ligeiramente pior que a anterior, acompanhada de debates, teses, lives, cursos, mentorias, landing pages, lançamentos no perpétuo (cof cof), publicidade, vídeos no Youtube e posts no Twitter (Ou X, né, depois do bilionário tech comprar a empresa) sobre se de fato está acontecendo, se realmente é tão grave, se podemos fazer algo, se o tempo já não passou...?
Enquanto o êxodo urbano, a gentrificação, as condições insalubres são as únicas ofertas à população.
Embora todos os alertas e não somente, mas métricas plausíveis a serem atingidas de redução da extração de matérias primas, da maior manutenção de matas ciliares em bancos de rios, da não degradação de mananciais ou não uso extensivo de terras apenas para pecuária. A escolha foi outra. Nesse momento não há mais a ideia de "aquecimento global" pois até isso teve de ser semanticamente ajustado às limitadas consciências dos negacionistas: agora estamos vivendo momentos de "mudanças climáticas extremas", justamente por ser mais palatável àqueles que não entendem como que no inverno passado ficou mais frio que nos últimos anos.

E os bilionários iluminados, aqueles que tomaram ayahuasca em cerimônias de dez mil dólares, que fizeram retiros de psilocibina em clínicas suíças, que microdosam LSD, viajam à retiros na Jamaica com Bufo e Kambô para aumentar produtividade/criatividade/ambição, estarão em seus bunkers na Nova Zelândia ou em habitats pressurizados em Marte, olhando para trás e provavelmente dizendo que fizeram o possível enquanto financiavam estudos para negar as alterações climáticas feitas pelos humanos. Talvez acreditem que a tecnologia era neutra, e que apenas construíram as ferramentas e não são responsáveis pelo uso que fizeram delas, mas no fundo, saberemos que na maior inflação de ego na história, convencer-se-ão de que são pessoas escolhidas pelo divino e que se não fugissem da Terra, estariam condenados como o resto da população.
Até lá, pessoal, há muito petróleo para extrair. A anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos e o Regime Trump não é à toa. Nesse sentido, citamos aqui uma nação que, em 1971 proíbe as drogas no mundo e desde então fazem ensaios militares de espionagem, alteração de governos, e guerras em nome da saúde e segurança mundial para, então, na segunda década do segundo milênio oferecer essas substâncias como salvadora dos traumas de guerra aos veteranos.
O problema fundamental da promessa psicodélica na forma como foi capturada e rearticulada pelo capitalismo contemporâneo é sua ênfase quase exclusiva na transformação individual.
A ideia é que se pessoas suficientes tiverem experiências de dissolução do ego, de interconexão, de amor universal, então naturalmente, organicamente, o mundo mudará.
É uma teoria de mudança social profundamente liberal e, em última análise, conservadora: transforma questões estruturais em problemas de consciência individual.
Mas consciência expandida sem análise de poder é espiritualidade de boutique.
E compaixão sem redistribuição material é caridade, não justiça.
Ver a unidade de todas as coisas e então retornar para um sistema econômico baseado em extração, exploração e acúmulo infinito é dissociação sofisticada.
Encontrar "pachamama", o "Grande Espírito", "perdoar, abraçar e acolher a criança interior", se "tornar um com o mundo"... Tudo isso é repetido por muitos que tomam psicodélicos. Mas será que é disso que precisamos como coletivo humano?
Os psicodélicos podem, sim, ser ferramentas poderosas para o confronto individual promovendo expansão de perspectiva e para confronto com traumas.
Mas não são, nunca foram e nunca serão substitutos para organização política ou para construção de poder coletivo, numa transformação das estruturas que determinam quem vive com dignidade e quem morre na invisibilidade.
As plantas maestras, as medicinas sagradas, os enteógenos — nada disso tem sido garantia de um mundo melhor. Afinal, psicodélicos brotam no chão de territórios proibicionistas sem necesseidade de uma intervenção humana
Nas mãos de uma elite que já decidiu que bilhões de pessoas são dispensáveis num planeta descartável, que a única saída é para cima e para fora, essas experiências se tornam apenas mais um item de consumo na prateleira.
A guerra está em outro lugar
Os psicodélicos não vão salvar porra de mundo nenhum porque a batalha pelo futuro da vida na Terra não está acontecendo no plano da consciência individual. Está acontecendo no plano do poder:
quem controla os recursos,
quem decide o destino de populações inteiras,
quem possui a capacidade material de moldar o futuro.
Enquanto nos concentramos em microdoses e cerimônias, em debates sobre set e setting, em qual tradição é mais autêntica, a Palantir assina contratos de centenas de milhões de dólares para identificar, mapear e expulsar "imigrantes indesejados".
Ué, não somos todos irmãos nessa rocha suspensa no espaço sideral?
Pelo jeito não.

Enquanto discutimos integração e intenção, os data centers sugam aquíferos inteiros. Enquanto buscamos cura pessoal, as corporações planejam a obsolescência programada da própria Terra.
Isso não significa que devemos abandonar os psicodélicos ou as práticas espirituais, hedônicas, recreativas ou de exploração da consciência. Porém vejam que a história não foi muito graciosa com as práticas e usos psicodélicos durante e pós colonização das américas. Como também é o caso da extensa e ampla exposição das veladas de Maria Sabina ao levar figurões da época: de banqueiros à astros do rock, pouco a pouco, notícias e manchetes levaram à depredação da casa de uma das últimas curandeiras mazatecas por conta do turismo psicodélico. Os donos das big techs, usuários de drogas, não estão na linha de frente pela regulamentação dessas substâncias embora tenham acesso fácil. Parece ser menos difícil criar um conglomerado de sistemas de vigilância universais que garantem que um tiro de .50 chegue a qualquer lugar do mundo do que garantir acesso à água, saneamento, educação e dignidade à população.
Me pergunto, sempre que esse catastrofismo me acomete: "abandonar os psicodélicos?" "Quem sabe.., guardá-los num baú?" E creio somos convidados a parar de atribui-los um suposto poder político extra-físico (meta?) que não possuem ao reconhecer que a transformação social requer mais do que transformação de consciência individual, requer transformação de estruturas coletivas.
Organização, confronto, redistribuição de poder e recursos.
Acima de tudo, parar de travar guerra inútil com os galhos e começar a cortar a raiz.
A pergunta que resta é: e nós, o que faremos com o que vemos?





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