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  • Foto do escritorFelipe Nadai

Psicologia, psiquiatria e psilocibina

Atualizado: 20 de jan.



A psilocibina, uma substância da classe das triptaminas, considerada psicodélica e encontrada em certos tipos de cogumelos (Pilocybe, Gymnopilus, Panaeolus, Copelandia, Conocybe, entre outras duzentas espécies)[1], tem sido usada por sociedades prévias às grandes navegações há séculos. últimos 70 anos passa por uma montanha russa[2] jurídica: ao serem vistas de formas contraditórias pela opinião pública e pelas autoridades (expostos em revista, santificados, demonizados, “redescobertos”...)


Ao longo da história, diversas culturas utilizavam essas substâncias em rituais de cura, morte, renascimento e em cerimônias religiosas como é o caso das civilizações indígenas da América Central e do Sul, como os maias e os astecas. Os usos variavam de cerimônias diplomáticas (trocas entre nações/grupos), cura, caça e oferenda[3] [4].


No entanto, foi somente no século XX que a psilocibina chamou a atenção da comunidade científica ocidental. Em 1958, o químico suíço Albert Hofmann isolou a substância psicoativa de cogumelos Psilocybe mexicana e sintetizou-a em laboratório[5]. Esse avanço abriu caminho para uma série de pesquisas científicas sobre a psilocibina, seus efeitos no cérebro e na mente humana.


Nos anos 1950 e 1960, a psilocibina e outras substâncias psicodélicas foram estudadas em diferentes contextos clínicos[6]. Pesquisadores relataram resultados promissores no tratamento de várias condições psiquiátricas, incluindo transtornos de ansiedade, depressão e dependência química[7]. Porém, em 1971[8] entra para a lista de substâncias controladas, após preconceitos e tentativa de criminalizar uma parcela da sociedade.


Felizmente, os usuários não abandonam seu uso, a despeito da proibição, e mantiveram tanto uma cultura de autocuidado como de conhecimento, tecnologia para cultivo e uso.


As últimas décadas promoveram um renascimento do interesse científico pela psilocibina e vários outros psicodélicos. Estudos têm demonstrado que a psilocibina pode ter efeitos terapêuticos significativos em condições como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)[9], transtorno depressivo maior[10], alcoolismo e ansiedade associada a doenças terminais[11]. As pesquisas sugerem que a psilocibina atua no cérebro, estimulando certas áreas e redes neurais, o que pode levar a experiências psicodélicas profundas e potencialmente transformadoras[12].


O composto encontrado nos chamados cogumelos mágicos parece facilitar a introspecção, promover a empatia e fornecer uma nova perspectiva sobre problemas e questões pessoais. Isso pode ser especialmente benéfico para pacientes com doenças mentais que se sentem presos em padrões de pensamento negativos ou limitantes.[13]


No entanto, é importante ressaltar que o uso da psilocibina como ferramenta terapêutica requer um ambiente adequado e a orientação de profissionais capacitados[14]. E esse é um outro debate: quem estipula o tamanho da régua de capacitação[15]. Quem determina se o terapeuta esteja qualificado? E como definir capacitação ao acompanhamento? São questão para uma outra hora. As sessões psicoterapêuticas assistidas por psilocibina devem ser conduzidas com cuidado, respeitando a segurança e o bem-estar dos pacientes. É essencial que as sessões sejam realizadas em um ambiente confortável, com profissionais qualificados para oferecer suporte emocional e orientação durante toda a experiência[16], [17], [18].

A psilocibina não é uma solução milagrosa para todos os problemas de saúde mental. Cada indivíduo é único, e os resultados terapêuticos podem variar. Os estudos preliminares e os relatos clínicos sugerem que a psilocibina pode ser uma ferramenta valiosa quando combinada com abordagens terapêuticas adequadas.


Um dos aspectos mais promissores da psilocibina é sua capacidade de gerar experiências místicas, transcendentais ou também chamadas de “experiências de pico”[19], muitas vezes descritas como "viagens" psicodélicas. Essas experiências podem fornecer aos indivíduos uma sensação de conexão profunda com o mundo ao seu redor, com outras pessoas e consigo mesmos. Esses insights e mudanças na percepção podem ajudar os pacientes a explorar e confrontar traumas, medos e padrões de pensamento negativos que podem estar contribuindo para sua condição de saúde mental[20].


Ao possuir um potencial promissor para a medicina, a psilocibina, principalmente no campo da saúde mental, tem uma história intrigante: com personagens icônicos como Robert Gordon Wasson e outras figuras já conhecidas do meio psicodélico como Albert Hofmann. Seu uso ancestral e o renascimento recente da pesquisa científica destacam sua capacidade de fornecer experiências transformadoras profundas, promovendo mudanças positivas na percepção, pensamento e comportamento, sendo assim uma grande aliada na batalha por uma saúde mental.

Essa publicação é fruto de conversas entre o psicólogo Felipe De Nadai (CRP 08/35704) e a psiquiatra Débora Tavares.





[1] OSS, O. T.; OERIC, O. N. Psilocybin: Magic Mushroom Grower's Guide: A Handbook for Psilocybin Enthusiasts. Ed Rosenthal, 1993. [2] DE NADAI, Felipe. Do xamã ao divã: psicoterapia assistida por psicodélicos. Primeira edição, Curitiba. Calligraphie Editora, 2019. [3] FAUX, Jennifer L. Hail the conquering gods: Ritual sacrifice of children in Inca society. Journal of Contemporary Anthropology, v. 3, n. 1, p. 1, 2012. [4] WILSON, Andrew S. et al. Archaeological, radiological, and biological evidence offer insight into Inca child sacrifice. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 110, n. 33, p. 13322-13327, 2013. [5] HOFMANN, Albert et al. Psilocybin, ein psychotroper Wirkstoff aus dem mexikanischen Rauschpilz Psilocybe mexicana Heim. Experientia, v. 14, p. 107-109, 1958. [6] ABRAMSON, Harold Alexander et al. Production of cross-tolerance to psychosis-producing doses of lysergic acid diethylamide and psilocybin. The Journal of Psychology, v. 49, n. 1, p. 151-154, 1960. [7] WINKELMAN, Michael. Psychedelics as medicines for substance abuse rehabilitation: evaluating treatments with LSD, Peyote, Ibogaine and Ayahuasca. Current drug abuse reviews, v. 7, n. 2, p. 101-116, 2014. [8] ANDRUS, Vance R.; MOORE, Charles R. The Uniform Controlled Dangerous Substances Act: An Expositive Review. La. L. Rev., v. 32, p. 56, 1971. [9] BIRD, Catherine IV; MODLIN, Nadav L.; RUCKER, James JH. Psilocybin and MDMA for the treatment of trauma-related psychopathology. International Review of Psychiatry, v. 33, n. 3, p. 229-249, 2021. [10] DAVIS, Alan K. et al. Effects of psilocybin-assisted therapy on major depressive disorder: a randomized clinical trial. JAMA psychiatry, v. 78, n. 5, p. 481-489, 2021. [11] MORETON, Sam G. et al. Embedding existential psychology within psychedelic science: reduced death anxiety as a mediator of the therapeutic effects of psychedelics. Psychopharmacology, v. 237, p. 21-32, 2020 [12] CARHART-HARRIS, Robin L. et al. Psilocybin for treatment-resistant depression: fMRI-measured brain mechanisms. Scientific reports, v. 7, n. 1, p. 1-11, 2017. [13] BARRETT, Frederick S. et al. Emotions and brain function are altered up to one month after a single high dose of psilocybin. Scientific Reports, v. 10, n. 1, p. 1-14, 2020. [14] STUDERUS, Erich et al. Prediction of psilocybin response in healthy volunteers. PloS one, v. 7, n. 2, p. e30800, 2012. [15] NIELSON, Elizabeth M.; GUSS, Jeffrey. The influence of therapists’ first-hand experience with psychedelics on psychedelic-assisted psychotherapy research and therapist training. Journal of Psychedelic Studies, v. 2, n. 2, p. 64-73, 2018. [16] LEARY, Timothy et al. The psychedelic experience: A manual based on the Tibetan book of the dead. Citadel Press, 2017. [17] REIFF, Collin M. et al. Psychedelics and psychedelic-assisted psychotherapy. American Journal of Psychiatry, v. 177, n. 5, p. 391-410, 2020. [18] GREENWAY, Kyle T. et al. Integrating psychotherapy and psychopharmacology: psychedelic-assisted psychotherapy and other combined treatments. Expert Review of Clinical Pharmacology, v. 13, n. 6, p. 655-670, 2020. [19] CUMMINS, Christina; LYKE, Jennifer. Peak experiences of psilocybin users and non-users. Journal of psychoactive drugs, v. 45, n. 2, p. 189-194, 2013. [20] KISELY, Steve et al. A systematic literature review and meta-analysis of the effect of psilocybin and methylenedioxymethamphetamine on mental, behavioural or developmental disorders. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, v. 57, n. 3, p. 362-378, 2023.


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